Como Financiar a Segurança Social no Século XXI - José Manuel Monteiro Veludo
Publicado a 14 Mai 2013
Secção: Coluna dos Associados, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
Uma proposta de sustentabilidade social
O presente projecto pretende analisar alguns dos problemas com que se debate hoje a segurança social, em particular as dificuldades, periodicamente anunciadas, relativas ao seu futuro financiamento e consequente sustentabilidade. Tal facto não pode deixar de suscitar a maior atenção e a maior preocupação, atendendo à sua relevância para o bem-estar da sociedade.
O desenvolvimento e a sustentabilidade social da sociedade levantam-nos, desde logo, dois problemas, que estão naturalmente ligados quando se questiona até onde deve ir a segurança social. Um dos problemas é o de saber até onde deve ir a protecção dada pela segurança social, levantando-se inclusive a questão de saber se ela deve ou não substituir por completo alguma iniciativa das pessoas no acautelamento do seu futuro.
As mudanças radicais das formas de produção no último quartel do século XX, em particular com a introdução das novas tecnologias nos processos produtivos, tiveram como consequência directa que se passou a produzir mais riqueza com menos trabalhadores e, em simultâneo, com uma crescente qualificação de cada posto de trabalho. Estas modificações têm vindo a originar uma maior individualização e independência de cada trabalhador, facto este que, aliado a uma menor concentração de trabalhadores, agravado ainda com os processos de deslocalização das empresas, no actual processo de Globalização, tem conduzido a uma fraca mobilização dos trabalhadores em torno da defesa dos seus direitos, os quais, progressivamente, lhes têm vindo a ser retirados ou diminuídos.
Para lá das dimensões referidas, o presente trabalho não deixará de abordar as questões sóciodemográficas (a relação activos/inactivos) e o envelhecimento populacional, não lhe merecendo estas questões, todavia, a importância que lhes é conferida por outros estudos, bem como, neste novo contexto sóciodemográfico, quais deverão ser as transformações a adoptar no papel do Estado, especialmente na regulação dos direitos sociais.
Neste estudo procuramos discutir modalidades de financiamento sustentável da segurança social no século XXI. Nesta perspectiva, o problema essencial que se coloca é em saber se o modelo mais adequado é o vigente, ou, pelo contrário, é preferível um modelo que assente num financiamento da segurança social baseado nos impostos indirectos. Na busca de uma solução para este problema procuramos identificar as linhas essenciais em que se estrutura o Modelo Social Europeu, relacionar a questão da pobreza e da sua permanência estrutural com as pensões de reforma, discutir o papel do Estado no financiamento da Segurança Social, contrapor a lógica das poupanças à lógica das pensões, referenciar modelos de sustentabilidade de financiamento, avaliar a pertinência dos regimes privados e identificar as linhas de financiamento da segurança social e das pensões de reforma em Portugal.
Como conclusão deste estudo, avançamos uma proposta de alteração do actual modo de financiamento, que se baseia no pressuposto que Portugal deverá financiar a segurança social afectando parte das receitas do IVA. Como financiar a Segurança Social no século XXI? Uma proposta de sustentabilidade social
Jogos de Sombras I - A.Palhinha Machado
Publicado a 14 Mai 2013
Secção: Opinião, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
Desmistificar o chamado “regresso aos mercados”. Uma Análise de A.Palhinha Machado in http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/924168.html

v “A emissão de Dívida Pública Externa correu lindamente”. Só correria mal se sindicato bancário e Governo se desentendessem – por maior que fosse o desespero do Governo para emitir dívida numa aparência de mercado. E tudo teria morrido no segredo dos gabinetes.
v Com os mercados financeiros internacionais enxarcados em liquidez (FED, BCE, BoJ e mesmo BoE a prosseguirem, simultaneamente, políticas monetárias de quantitative easying); com o BCE a afirmar que fará tudo para sustentar o euro (e a manter abertas as linhas de cedência de liquidez garantidas por Dívida Pública portuguesa); e com a colocação assegurada por um grupo de Bancos (sindicato bancário; não, a emissão não teve lugar em mercado aberto) – numa conjuntura tão favorável assim, não colocar a emissão é que seria impensável, um feito histórico.
v A decisão dos investidores directos (e daqueles que entram habitualmente em swaps de carteiras com Bancos) subscrever Dívida Pública portuguesa é uma decisão que faz todo o sentido:
(i) compram por 100 um título com cupão de juros de 5.66/ano;
(ii) acorrem ao BCE e entregam esse título em garantia de um financiamento que andará pelos 90, pagando por isso menos de 0.90/ano;
(iii) a diferença (da ordem dos 10=100-90) preenchem-na com Capitais Próprios;
(iv) com esses 10 de Capitais Próprios a obterem uma taxa de retorno de 47.6%/ano (=4.76/10; com 4.76=5.66-0.90).
Nada mau, para quem empresta. Deprimente, para quem pede emprestado.
v Esta história só não terá um final feliz se o BCE desistir de fazer tudo para sustentar o euro – por exemplo: deixando de aceitar mais a Dívida Pública portuguesa como garantia das operações de cedência de liquidez (o que, sendo possível, parece muito pouco provável num futuro previsível).
v Correu lindamente? A única coisa que correu bem nesta emissão foi o facto de ela ter ocorrido – e nada mais. A taxa de juro obtida (à qual há que acrescentar as comissões cobradas pelo sindicato bancário para conhecer o custo efectivo dos fundos captados) é vergonhosamente elevada (e não pode ser comparada com o que se passou na última emissão semelhante, porque a conjuntura, então, era outra). A sensatez recomendaria que não se repetisse a brincadeira pelos tempos mais próximos.
v “Há que financiar as empresas portuguesas. O Governo não pode emprestar, que avancem os Bancos”. Porque será que, entre nós, “necessidade de financiamento” é sempre sinónimo de “mais dívida”? Ninguém aprendeu a lição do endividamento excessivo em que Governos, Bancos, Empresas e Famílias se comprazeram durante anos e anos a fio?
v Em geral, as empresas portuguesas não têm necessidade de mais dívida, mas de mais capitais próprios. E o que faz o Governo para motivar a capitalização das Empresas? Considera os encargos financeiros com a dívida (juros, etc.) como custos fiscais (abate-os à matéria colectável) - e tributa duplamente a remuneração dos capitais próprios.
v Sem se aperceber de que, quanto maior for o endividamento, maior será o risco que a economia representa aos olhos de todos. E que, quanto mais endividados estiverem os seus devedores, mais elevados terão de ser os capitais próprios dos Bancos. Além de que a legislação persiste em não proteger suficientemente os sócios minoritários.
v “Há que proporcionar o acesso ao dinheiro em condições razoáveis”. Em Portugal, a lista de direitos adquiridos não pára de crescer – agora é mais este: dinheiro (leia-se, endividamento) em condições razoáveis. Só que, nos empréstimos bancários, o que é razoável é que o custo do dinheiro reflicta a perda esperada na operação - e essa perda esperada (por unidade de capital em risco) será tanto maior quanto maior for o grau de endividamento do devedor.
v Entre nós, até 2010, a regra foi exactamente o oposto: condições sem a menor razoabilidade. Durante anos, porque conceitos como “perda esperada” eram obscuros – e não passava pela cabeça de ninguém (dos Bancos ao BdP) ligar perdas prováveis a capitais próprios. Mais recentemente (a partir de 1999), porque o que importava era lutar por quota de mercado a qualquer preço - o risco incorrido, esse, era um detalhe sem grande importância.
v E assim vamos vivendo, não no meio de um nevoeiro espesso, mas iludidos por jogos de sombras que alguém vai projectando habilmente nas paredes da caverna. (cont.)
Desporto Universitário - II - Prof. Doutor José Augusto Rodrigues dos Santos
Publicado a 10 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Opinião | Deixe um Comentário
Hoje, com as forças do neoliberalismo a penetrarem sub-repticiamente todas as expressões de vitalidade do tecido social europeu, assistimos à consideração do desporto como mercadoria de consumo numa sociedade regida pelas sacrossantas e idolatradas forças do mercado. Cultura e formação estão longe das preocupações dos tecnocratas que nos governam, e somente a lógica do lucro impera em todas as esferas de realização social.
Como pedagogos do desporto, levantamo-nos, desde há muito, contra a consideração exclusiva do desporto como actividade marginal, catártica e higiénica. Retirando-o da marginalidade pugnamos por um desporto que, podendo ser catarse e higiene, deve ser fundamentalmente uma expressão de cultura, relevando da vocação ética e estética que ultrapassa o domínio físico onde se expressa.
Caminhamos para uma sociedade de lazer em que o desporto, ao lado de outras formas de expressão cultural, se constituirá como meio de defesa eficaz contra a robotização das mentes e dos costumes.
Ao emergir da sociedade como fenómeno complexo e não como epifenómeno passageiro e superficial como alguns pensaram, o desporto, em circuito retroativo marca a sociedade hodierna como regras e rituais cada vez mais institucionalizados e de superior pregnância sociológica. Os instrumentos heurísticos que nos serviram para compreender o desporto no passado mostram-se incapazes de penetrar no desporto hodierno.
Em 1975, na fase mais quente após o 25 de Abril, momento em que todos os valores eram postos em causa, Jorge Crespo, num arroubo visionário falhado, afirmava que “a desestruturação do futebol profissional, o seu apagamento e eventual destruição, é um facto irreversível” (sic). Sentimos, sim, que os primeiros momentos revolucionários eram mais propensos à nossa afirmação de cidadania e participação política, procurando nervosamente novos valores. Pusemos em causa, além de alguma axiologia religiosa ultramontana, alguns dos ícones culturais que foram cimento do Estado Novo – o fado e o futebol. Alguns tentaram marcá-los com os estigmas do autoritarismo e alienação social. Enganamo-nos. Não era o fado e o futebol que eram alienantes; éramos nós que estávamos alienados dos mais elementares direitos cívicos e políticos.
Ultrapassados os momentos de efervescência catártica e de crítica radical aos valores estabelecidos, já de posse de alguns instrumentos conceptuais novos, aceitamos o regresso do fado e futebol que faziam parte da nossa mais conseguida idiossincrasia. Com a nossa libertação cívica e política libertaram-se também todas as expressões culturais que jaziam adormecidas nos nossos sonhos de utopia, assistindo-se a um boom significativo do desporto que ganhou uma rara pregnância social, única na história da grei.
O desporto ganhou dimensão cultural e utopia. Utopia que se concretizou nos feitos maravilhosos dos nossos meio-fundistas e fundistas do Atletismo.
O desporto foi campo úbere de afirmação Pátria. Com a nossa emoção mais profunda expressa em lágrimas de alegria recuperamos, com o feito olímpico do Carlos Lopes, um sentimento de autoestima Pátrio que só terá paralelo nos feitos dos nossos grandiosos navegadores.
O desporto elevou-nos a dimensão de cidadania e respeito internacional, por isso o devemos reformular, cada dia, na senda da perpetuação das nossas mais íntimas utopias.
O desporto, como forma de expressão de sociabilidade, deve ser catalisador da realização ontológica. O desporto deve ser terreno vivo de encontros humanos tendo a festa, o riso, a alegria e o humor como referências e tendo como denominador comum a competição.
Competir como processo de elevação pessoal e social, aceitando as hierarquias impostas pela performance desportiva. Nesse contexto, o adversário deve ser visto não como o inimigo a destruir mas como o companheiro necessário à aventura da auto e hetero-superação pela via do desporto. Querer ganhar sempre, mas no respeito das regras, das normas, dos valores.
É esta a dimensão que pretendo para o desporto universitário que deve ser assumido ab initio sem sofismas.
Comunicado IDP sobre o Dia da Europa - 9 maio 2013
Publicado a 09 Mai 2013
Secção: :: Comunicados, Notícias IDP | Deixe um Comentário
Comemoramos o dia da Europa neste 9 de maio de 2013 com vários pesadelos a pairar sobre a União Europeia, em particular nos países do Sul: a classe trabalhadora tem cada vez menos trabalho, a classe média tem cada vez menos meios e a classe dirigente tem cada vez menos classe. E estes países do Sul são os fundadores da Europa histórica, a Grécia da Antiguidade, a Itália, Portugal e Espanha da modernidade mediterrânica e da Expansão mundial, depois seguidas por França e Inglaterra.
Os povos europeus tiveram um papel essencial no desenho do Mundo em que hoje vivemos. Inaugurámos a modernidade como época e a modernidade tornou-se um processo que chegou a todo o mundo e aos nossos dias. Nenhum outro continente tem tamanha preponderância cultural, nenhum outro liderou uma tal mudança. Enquanto continente, a Europa é um elemento incontornável no mundo moderno e será, no futuro um ator essencial na elaboração do mesmo.
O 9 de Maio, sendo a data importante da fundação da União Europeia, é apenas um segmento da riquíssima história da Europa. A unificação europeia é uma ideia inovadora e arrojada, como apenas os europeus poderiam empreender. Num mundo em que a fragmentação é a norma, onde nem América, nem Ásia, nem África se apresentam como unidades, unificar povos diversos com um fundo cultural comum é uma tarefa que apenas os europeus poderão conseguir.
Lembremos o óbvio. A Europa de hoje é mais rica do que alguma vez o foi na sua história. Mas é uma Europa mais velha e menos afoita do que em épocas anteriores. Conseguimos a paz, através da colaboração de países que estiveram em guerras ao longo de séculos. Em torno de um projeto comum, alcançámos um nível de prosperidade e benefícios inauditos. Mas agora exigimos novas regras comuns. Para manter os mesmo princípios de paz, solidariedade, coesão e justiça social.
Encontramo-nos, num momento chave da construção de um novo ciclo. Para quem tem uma história de muitos séculos, o período da construção do espaço europeu é curto; os desafios presentes são muito semelhantes aos do passado. Não existem razões para perder a esperança na Europa, mas temos de abordar com uma nova atitude o novo ciclo em que estamos a entrar.
Vivemos tempos conturbados em que se definirá o nosso futuro. Estamos a assistir ao risco dos interesses de cada membro se sobreporem ao interesse comum, pondo em perigo um projecto que, a ser invertido, teria custos insustentáveis para todos. As elites europeias usaram a “Europa” face aos seus eleitorados como o álibi para a promoção de decisões impopulares. É o famoso défice de democracia na Europa. Esse tempo está esgotado porque se exige aos povos independentes europeus que renovem o compromisso com a Europa.
Os movimentos de cidadania, as redes da sociedade civil, os movimentos sociais, vão ter uma palavra cada vez mais decisiva neste novo ciclo da Europa. Vão ser eles a exigir responsabilidades aos dirigentes, para alcançar um novo compromisso histórico entre os povos da Europa. A democracia vai ter que encontrar novas fórmulas para que os trabalhadores tenham cada vez mais assegurada a sua dignidade e para que novos dirigentes mostrem que servem os povos, antes de servir-se a si próprios ou a poderes económicos e financeiros. Só assim os pesadelos desaparecerão da União Europeia.
Lisboa, 9 de maio de 2013
A Direção do IDP
Desporto Universitário - Velhas sendas, novos rumos? - I - Prof. Doutor José Augusto Rodrigues dos Santos
Publicado a 08 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Opinião | 1 Comentário
O desporto universitário em Portugal além de ser atravessado pelos estigmas que caracterizam o desporto em geral, e que são o reflexo da forma como a sociedade valoriza a prática desportiva, ainda arrosta uma série de condicionantes que lhe são próprias e que são a base das múltiplas indefinições que o caracterizam.
Antes de tentarmos analisar criticamente o Desporto Universitário, perspectivando o seu futuro, vamos fazer uma viagem ao âmago desse fenómeno social cada vez mais pregnante que é o desporto sensu latu com a preocupação de vislumbrar as balizas axiológicas que poderão dar um sentido à sua importância social.
Qual a categoria genésica do desporto? A tensão agonística.
A competição, subjacente a todas as construções humanas, exprime as potencialidades auto-organizadoras da vida. A expressão agonística cultural é uma deriva da competição biológica que foi a causa determinante para a evolução quantitativa e qualitativa da espécie humana. Da biologia à cultura, a competição exprime-se numa pluralidade de formas e conceitos e, de uma forma geral, os seres mais sujeitos ao stresse dos antagonismos e constrangimentos impostos pelo envolvimento foram aqueles que desenvolveram mecanismos adaptativos mais eficazes. Isto dentro de certos limites, já que quando a capacidade adaptativa é ultrapassada pode-se desembocar na destruição total da organização dos sistemas vivos. O que não me mata torna-me mais forte, assevera-nos Nietzsche, que com iniludível mestria conceptual elaborou um corpo filosófico coeso que prenuncia as descobertas básicas da biologia que consubstanciam as leis biológicas da carga, pedras angulares da metodologia do treino – Sobrecarga, Especificidade e Acção Reversível.
Para haver evolução é necessário existir luta, competição. O corpo só evolui se for agredido, pois só assim exprime, em toda a sua plenitude as suas potencialidades re-organizadoras. O desporto exprime, de forma simbólica, a luta genésica da espécie humana pelo domínio do habitat. A pré-história do desporto entronca nas funcionalidades inerentes à procura de alimento e defesa do habitat.
Mais tarde, já na fase histórica da evolução humana, o desporto continua a expressar, embora de forma mais atenuada, a luta pela sobrevivência. Atentemos, na Grécia Antiga, no modelo de educação e apuramento racial apanágio dos Espartanos, e ainda vislumbramos resquícios dum guião biológico regido por leis radicalmente naturais que foram o suporte da emergência do homo sapiens a partir dos seus predecessores menos capacitados. De uma forma geral, a competição desportiva na Grécia Antiga, é parte constitutiva da preparação do guerreiro, visando o desenvolvimento das suas capacidades para a luta.
O desporto é, em grau superlativo, um sistema de realização de competências motoras de acordo com padrões e critérios de avaliação que variam de escala em função no nível competitivo visado. Enquanto um desportista de elite só ficará satisfeito com a consecução do feito absoluto (campeão do mundo, campeão olímpico, campeão europeu, etc.), outros, de menor nível performativo, contentar-se-ão com patamares mais reduzidos de realização. Muitas vezes, a única validação da prática desportiva radica na fruição lúdica e/ou hedonista que é tão válida como outra qualquer.
Em termos ontológicos, os padrões e critérios de avaliação e valorização da realização desportiva não estão condicionados pelo nível competitivo do atleta mas, diferindo em grau, induzem efeitos diferentes. Um atleta de menor nível competitivo valida em si e por si o seu feito desportivo. Para o atleta de alta competição a validação é absoluta, consubstanciando por um lado a excelência individual e por outro o pleno reconhecimento social que muitas vezes tem uma expressão material pela outorga de benesses e prebendas. O desporto de elite é o modelo referencial de todas as outras dimensões desportivas. Despido já de validações subjectivas, implícitas, no entanto, qualquer que seja o nível de prática, diz respeito a uma casta especial, que por sê-lo, se constitui como modelo promocional do bom e do mau que o desporto encerra como prática social.
O desporto hodierno já perdeu alguma pureza da sua génese mitológica e histórica. Na Odisseia, Ulisses, o herói homérico, é desafiado pelos Feácios para várias competições desportivas e de canto e poesia. Competir e ganhar para dar boa notícia de si, isto é a glória e o reconhecimento. Hoje, dar boa notícia de si já não chega, a recompensa material é imperativa como corolário duma prática profissionalizada que foi motivo de menorização e opróbrio em alguns momentos da história do desporto.
Os heróis desportivos gregos, depois de um período de trevas que desvalorizou o corpo como santuário de vida e o elegeu como mero receptáculo de pecado, têm hoje os seus émulos a quem também são cantados os epinici para depois da vitória. Os heróis desportivos modernos ombreiam, tal como na antiguidade, com as elites culturais e artísticas e partilham com elas o reconhecimento social. De atentar que entre os vinte portugueses mais importantes de sempre, com tudo de subjectivo e mesmo sectário que tem uma eleição deste tipo, estão três homens que são verdadeiros ícones desportivos – Eusébio, Pinto da Costa e Mourinho que o povo português colocou ao lado das grandes figuras históricas, culturais e artísticas que mais nos marcaram. Na minha concepção pessoal, o feito desportivo diz respeito exclusivo ao atleta. Os outros (treinadores, dirigentes, árbitros), são meros fautores de condições para a excelência do desportista aparecer. Erguê-los como ícones diz algo sobre a amálgama de valores que por vezes descaracterizam a axiologia do desporto.
Poucos têm lugar no panteão da excelência e na mitologia desportiva. E os outros? Os “normais”? Estão condenados à irrealização e ostracismo? Devem deixar a arena desportiva à reduzida elite que catalisa todo o empenho mediático?
Não, existe lugar para todos no seio úbere do desporto. Todos podem encontrar na prática desportiva, momentos de realização, tanto ou mais gratificantes que os obtidos por muitos campeões, pelo menos por aqueles campeões que sabem que têm a mentira e a batota como alicerces dos seus êxitos.
Vestidos com as roupas da normalidade genética está-nos vedado o feito absoluto total, mas temos o direito e a obrigação de pugnar na procura dos nossos absolutos individuais. Se somos deserdados da lotaria biológica mais razão temos para nos cumprirmos na exploração maximal das nossas potencialidades. E aí seremos tão ou mais campeões que aqueles que fazem parte do areópago das nossas idolatrias.
Chegamos ao desporto a partir dos jogos da nossa infância, em que ganhamos e perdemos sem angústias ou exaltações prolongadas. Com a importância acrescida da luta social em que nos empenhamos na procura da nossa realização profissional e humana, muitas vezes manchamos o desporto com os miasmas da competitividade exacerbada que pode ser fatal. Lembremo-nos dos vários casos letais promovidos pelo boom da corrida nos anos 70, em que jovens quadros de empresas, sedentarizados e hipercompetitivos, no afã de se afirmarem também no desporto, ultrapassavam os limites da normalidade funcional e entravam em zonas de esforço patológico, muitas vezes fatal. Ter consciência dos limites e assumir o acto desportivo como acto de cultura diz bem do nível evolutivo de uma sociedade. Numa sociedade que coloca o homem no centro das suas preocupações, o desporto é mais um laço gregário que contraria as forças disjuntoras que por vezes tolhem uma saudável evolução social. Mal-entendido e interpretado, o desporto pode constituir-se como mais um factor de dissensão e afrontamento sociológico. Portanto, o desporto não é um fenómeno cultural inócuo; ele recebe da sociedade os valores e linhas de força que caracterizam essa mesma sociedade.
José Augusto Rodrigues dos Santos
Professor Associado com Agregação
Faculdade de Desporto
Universidade do Porto
O sindicalismo hoje - Ascenso Simões, Conselho de Regiões IDP
Publicado a 07 Mai 2013
Secção: Opinião, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
A crise que vivemos aprofunda, todos os dias, a relação entre eleitos e eleitores. Os partidos, os candidatos, não sabem gerir a incerteza e, por isso, dias após cada eleição as sondagens já demonstram a vontade de nova mudança de política.
Se olharmos para a situação que se vive em França, onde Hollande tem hoje uma aprovação eleitoral inferir a Le Pen; se olharmos para a Islândia, onde os responsáveis pelo “assalto financeiro” de 2008 regressam, alegremente, ao poder; se olharmos para a “folclórica” constituição do governo italiano, que só não inclui o Grillo falante por inadequação, poderemos dizer que os sistemas políticos democráticos, em especial os europeus, vivem com um problema prático de resposta às exigências diárias que os cidadãos lhes dedicam.
E o problema não é só dos governos ou dos partidos, da sua vida interna, onde também há dificuldades que terão que ser resolvidas. O problema é mais vasto!
O debate tem, apesar de tudo, as estruturas políticas e partidárias como centro. Mas torna-se insuficiente. O que está em desagregação não são só as estruturas partidárias, é a sociedade organizada como a conhecíamos, uma sociedade gerida através de grupos de interesses, gregária, sectorial. A decadência da militância verde, o desaparecimento da valorização da extensão cultural, o extermínio das práticas de organização recreativa local são sinais, em muitos países, de uma nova realidade que eclipsou a vida de partilha e reivindica, agra, a vida de benefícios de “sofá”.
Esta realidade transmite-se aos sindicatos. E hoje, por ser primeiro de maio, sempre diremos que também o movimento sindical, apelidemo-lo assim por ser assim mais interessante, carece de uma leitura complementar.
O movimento sindical assente, unicamente, na expressão do contrato institucional não chega. O sindicalismo é, essencialmente, um referencial de uma parte do mundo, que deve voltar a revelar-se imprescindível para milhões de seres que vivem do seu esforço e da sua inteligência. Se há, ainda, um cosmos em que a oposição do trabalho ao capital se revela, olhando a Doutrina Social da Igreja nas suas proclamações fundadoras, então os sindicatos continuam a ser determinantes, fundamentais, para o futuro desse cosmos.
Claro está que as estruturas sindicais necessitam de se revelar nas novas formas de trabalho, onde a tecnologia é agora central; claro que os sindicatos devem garantir a sustentabilidade do tecido económico como essencial à manutenção do emprego; claro que a negociação coletiva precisa de se agregar a realidades novas, que podem e devem ir além da certificação e autorização sindical. Mas se nas estruturas de representação partidária as escolhas se fazem ciclicamente e podem determinar mudanças de orientação e sentido, no movimento sindical, qual igreja ou credo, o sentido, com mais menos moderação ou radicalismo, tem pouca margem a reinvenções. O sindicalismo representa, sempre, a parte mais fraca.
Importa, pois, que no dia de hoje se faça valer o que de relevante e relativamente perene ainda têm as nossas sociedades – estruturas sindicais fortes e simbolicamente aptas à defesa dos trabalhadores.
® 2013.05.01 – Ascenso Simões
Uma questão de regime
Publicado a 06 Mai 2013
Secção: Instituição Real, Área de Foco: Debate Ibérico | Deixe um Comentário
30% dos portugueses preferem a monarquia, afirma a Televisão espanhola
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