Antonieta Guerreiro - E depois dos incêndios?…
Publicado a 13 Ago 2012
Secção: Coluna dos Associados |
Antonieta Guerreiro
Associada do IDP
E depois dos incêndios?…
Segundo Gonçalo Ribeiro Telles os incêndios surgem “por causa dos monopovoamentos, alastrando-se assim com facilidade”. Outra razão apontada é a falta de apoios à pastorícia e consequente falta de pessoas no interior do país.
Por outras palavras, Gonçalo Ribeiro Telles diz-nos que a diversidade de espécies existentes na Floresta Mediterrânica, onde as plantas se apresentam em diferentes níveis desde as plantas rasteiras às árvores (como sobreiros, oliveiras, alfarrobeiras, etc…) passando pelos arbustos como as estevas e os medronheiros, dificultam o alastramento dos incêndios. A pastorícia tem um papel importante na proteção ambiental. O gado caprino, pela sua fisiologia, tem a capacidade de arrancar pela raiz as pequenas ervas que no verão servem de rastilho aos incêndios. Estes pequenos ruminantes são um recurso a ter, cada vez mais, em consideração, na limpeza e revitalização de áreas florestais. Usados de forma tecnicamente eficaz, podem ser a única maneira de tornar economicamente suportável a limpeza de algumas áreas florestais como já acontece nos Estados Unidos onde rebanhos de cabras são alugados com o objetivo de prevenir incêndios.
O projeto desenvolvido pela ANCCRAL (Associação Nacional de Criadores de Caprinos de Raça Algarvia) no Azinhal, Castro Marim, é um bom exemplo. 40 produtores têm cerca de quatro mil cabras de raça algarvia. Com o leite fazem iogurtes e queijos frescos de grande qualidade (produzido com cardo e sal marinho da Reserva Natural do Sapal de CM/VRSA). As cabras ao puxarem pela raiz as ervas revitalizam e revolvem o solo ao mesmo tempo que o fertilizam e adubam de forma natural. A título indicativo, nos últimos anos o efetivo de pequenos ruminantes na região do Algarve diminuiu cerca de 35% e com eles diminuíram as pessoas no interior do território.
Outro projeto benéfico, não só, ao povoamento, mas também, no combate aos incêndios são as coutadas de caça, tanto associativas como turísticas, que existem em Alcoutim e Castro Marim. Os caçadores promovem a limpeza de áreas agrícolas e procedem à sementeira de cereais nas épocas de escasseio e fornecem água e alimento aos animais que residem nas coutadas. Foi assim que as perdizes regressaram à serra algarvia. Castro Marim é o único município do país sem corpo de bombeiros, o que levou a autarquia a dotar as várias associações de caçadores com equipamentos de prevenção e proteção contra incêndios e são estes homens que fazem vigilância na zona mais desprotegida do Algarve. Os caçadores foram os segundos heróis no combate aos incêndios.
Ardeu e 5% do Algarve. Não o litoral das praias, das festarolas, das roupas fashion e dos flashes, mas o interior que também produz riqueza. Entre as perdas está, não só, a produção de cortiça e o respetivo sobreiral que levará cerca de 30 anos a ser reposto, mas também, milhares de colmeias. A importância destes pequenos polinizadores é vital para vida na terra. A pesar da reposição das colmeias ser mais fácil do que a dos sobreiros ambos fazem falta ao Algarve.
Se no inverno se previnem os incêndios, no verão, evitam-se os deslizamentos de terra. A experiência diz-nos que depois dos incêndios é necessário: limpar as ribeiras e açudes; reflorestar a área ardida e criar barreiras no perímetro ardido. Caso contrário, quando chover, a falta da vegetação que produz o efeito amarramento do solo, traduzir-se-á em deslizamentos de terra, enxurradas e mais acidentes trágicos para as pessoas. Aprenda-se com os erros do passado.
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