INSTABILIDADE, MEDO E DESORIENTAÇÃO - General Garcia Leandro - Curador do IDP
Publicado a 19 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Área de Foco: Democracia | Deixe um Comentário
Portugal está atualmente a sofrer uma situação de excepção e de muito perigo.
É indiscutível que o atual Governo recebeu do anterior uma situação de pré-bancarrota; sobre isso já escrevi e não há comentários de televisão que possam disfarçar a realidade.
Porém, o atual Governo entrou de peito feito, convencido que tinha modelos e soluções indiscutíveis, o que fez com grande arrogância.
Não conhecia bem o país e a sua economia, não conhecia a máquina do Estado, não quis um Governo de coligação e as soluções aplicadas, de grande sacrifício, saíram sempre falhadas a nível interno.Não soube defender os interesses de Portugal na frente externa na questão dos prazos do acerto financeiro e orçamental (dentro do quadro macro, há sempre questões específicas nacionais que devem ser defendidas com muita garra; as negociações internacionais não são jogos florais e por vezes não podemos ser apenas silenciosos alunos) e o quadro legislativo tem estado sempre a sofrer alterações o que não dá estabilidade aos investidores e aos cidadãos. Acresce que não há regras iguais para todos, pois, para alguns, há sempre excepções (e não são poucos), o que cria naturais sentimentos de injustiça e de revolta.
Privilegiou as Finanças em detrimento da Economia, quando as duas deviam ter andado par a par; ações nas Finanças não deviam ter impedido um grande esforço na Economia.
Acresce que quis fazer rapidamente reformas em todas as áreas sociais e do Estado, o que não é um método de sucesso; sem querer falar em erros de casting, aprende-se na história, na estratégia e nos manuais de administração que não se pode actuar simultaneamente em muitas frentes, pois o risco de descoordenação, desarticulação e de falta de meios é muito grande.
Basta lembrar que o nosso primeiro Rei, Afonso Henriques, quis conquistar a Galiza (foi lá quatro vezes) e o Sul, então mouro. Mas nunca combateu nas duas frentes simultaneamente; se atacava ao Norte, não fazia no Sul e vice-versa. Falhou na Galiza, mas iniciou a reconquista do sul que terminou com Afonso III.
Há a adicionar que o PM, que tem grandes qualidades como cidadão, não consegue dirigir em condições o Governo perante tantas dificuldades, teimosia e erros.
Em consequência existe instabilidade em todo o País, em todas as atividades, em todas as classes e tipos de trabalho, já que ninguém sabe quais são as regras do jogo, sendo que rapidamente o que é hoje verdade, poucos dias depois é alterado.
Nestes moldes, o estado de Direito está em risco por via de uma atuação sempre agravada (e sem resultados) das Finanças. O momento seguinte é o do medo que já está no terreno e completamente generalizado, o que leva todos os cidadãos normais (os que não são quadros superiores da EDP e similares) a reduzirem, cada vez mais, os seus consumos e compras, ajudando a agravar a situação económica. Quando era necessário consumir para ajudar a atividade económica, ocorre o contrário.
Seguidamente vem (já cá está) a desorientação a que o Governo não foge; está mesmo à cabeça dessa tendência.
Mas com um Governo desorientado, o País não consegue ir a nenhum lado.
E no quadro polítco-partidário não temos alternativas credíveis; resta-nos o Presidente da República que, independentemente do trabalho de bastidores que deve fazer, parece uma esfinge não se conhecendo os resultados de tal atividade.
Só há uma alternativa, a entrada em força da Sociedade Civil, devidamente organizada.
O sistema político-partidário da III República falhou rotundamente e tem de ser substituído; não é um desejo, é uma inevitabilidade; de outro modo iremos desaparecer.
Terminou o período em que a Sociedade Civil deu o benefício da dúvida a estes Partidos Políticos que vivem em conjunto numa cápsula blindada algures na estratosfera, completamente divorciados do País real.
É a altura da Sociedade Civil se assumir de modo integrado.Será capaz?
Lisboa, 10 de Abril de 2013
General Garcia Leandro
Desporto Universitário - III - Prof. Doutor José Augusto Rodrigues dos Santos
Publicado a 17 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Opinião | Deixe um Comentário
De posse dos instrumentos conceptuais que validam a prática desportiva correcta, importa definir o estado de situação do desporto universitário em Portugal.
- Não existe desporto universitário em Portugal
Existe uma prática desportiva circunstancial por partes dos estudantes tendo em vista os campeonatos universitários. Esta prática não é o resultado dum empenhamento contínuo, sistemático e exclusivo, mas sim o recurso aos melhores atletas federados que já saturados da sua prática habitual “fazem o favor” de representar a sua faculdade, raramente nos campeonatos regionais e mais frequentemente nos campeonatos nacionais. Esta é a mentira primordial do desporto universitário e que o tem atravessado no decurso dos tempos.
- Não existem condições físicas para existir desporto universitário
Reflexo dos vários atavismos concernentes às coisas do corpo, nunca se cuidou de apetrechar as várias faculdades com os seus próprios espaços desportivos. As instituições que centralizam as preocupações desportivas das principais academias (CDUP no Porto, Académica em Coimbra e CDUL em Lisboa), embora vocacionadas para tal, nunca, repetimos, nunca conseguiram dar resposta quantitativa às exigências duma prática desportiva regular dos estudantes universitários.
- Não existem condições académicas para existir desporto universitário
A premência de horários carregados, muitas vezes elaborados a partir dos interesses externos dos professores, inviabiliza uma prática desportiva sistemática.
- Os estudantes universitários, na sua maioria, não possuem cultura desportiva
Uma grande percentagem dos estudantes que chegam à Universidade tem uma prática desportiva esporádica ou mesmo inexistente. Sem uma cultura desportiva anterior é difícil assumir o desporto como fator de realização pessoal. No entanto, há quem seja o melhor aluno do seu curso mantendo ininterrupta uma prática desportiva de elevada qualidade.
- Não existe uma cultura nacional desportiva em que o desporto universitário seja mais um dos patamares da procura da excelência desportiva global
O desporto universitário concretiza-se como epifenómeno do desporto federativo nacional.
Nos Estados Unidos da América, o desporto universitário possui uma carga social e académica importante, consubstanciando-se como patamar fundamental na hierarquização competitiva do desporto norte-americano.
Em Portugal, o panorama deprimente que caracteriza o desporto universitário, considerado como prática avulsa sem pregnância no tecido social, é o reflexo da extrema intelectualização dos saberes universitários. Já Nietzsche avisava que “o teu corpo tem mais sabedoria que a tua inteligência”; é lógico que devemos aqui considerar o corpo como entidade ontológica completa. Mesmo que existam raros exemplos de corpos minados pela doença a exprimir-se pela excelência intelectual (e.g. Stephen Hawkins), uma saudável fisiologia é a base estruturante que permite a informação passar a conhecimento e este transformar-se em sabedoria.
Urge, portanto, redimensionar o desporto universitário, segundo uma dupla vertente: uma competitiva, outra de lazer. Ambas são importantes e devem funcionar de forma complementar. O desporto universitário competitivo deve ser assumido sem paternalismos ou mentiras competitivas. Deve ser suportado por um quadro competitivo próprio, com participação exclusiva que impossibilite a penetração de atletas federados. Deve existir um desporto competitivo universitário paralelo ao desporto competitivo federado. Só assim o desporto universitário poderá ter autonomia e ganhar importância escolar e social.
Depois, teremos o desporto de lazer e aventura, imenso campo a explorar através de práticas programadas ad hoc e que reflitam, o mais possível, a diversidade de interesses que são despertos a cada momento.
Pode parecer, à primeira vista, que estamos a laborar em fenómenos colaterais ao afã universitário de procura da excelência na aquisição do conhecimento. No entanto, em alguns países, o currículo desportivo é valorizado de forma determinante na escolha dos melhores para a assunção dos cargos profissionais.
Quem se autodisciplinou, que se auto-superou pela prática desportiva, ganhou os alicerces fundamentais para detonar vontade e empenhamento na luta, cada vez mais acesa, da afirmação e realização profissionais.
José Augusto Rodrigues dos Santos
Professor Associado com Agregação
Faculdade de Desporto
Universidade do Porto
A Zollverein Alemã para a Europa - A. Palhinha Machado
Publicado a 15 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
Jogos de sombras - II
v “A Alemanha tem uma estratégia para o euro”. Não! A Alemanha tem uma estratégia para Alemanha. Uma estratégia de longo prazo – a que teve de que acoplar à pressa uma táctica para o imediato, por causa da crise financeira internacional e dos erros que esta crise veio pôr a descoberto no euro.
v Primeiro, a táctica. A crise trouxe à luz crua do dia o estado deplorável da Banca alemã, que imitava o que os grandes Bancos verdadeiramente globais iam fazendo por esse mundo fora, mas sem os copiar em matéria de governance e gestão do risco. Só isso explica a enorme exposição dos Bancos alemães, tanto a Leste, como a Sul (e o estado actual dos seus esquemas de seguro de crédito à exportação).
v Era necessário tempo para:
(i) pôr no são o sistema bancário alemão, encerrando uns Bancos, fundindo outros, recapitalizando aqueles com maior projecção internacional;
(ii) e, de caminho, procurar maneiras de os seus grandes devedores irem dando a imagem de que alguma vez pagariam (para não chamar atenções, nem suscitar cuscovilhices antipáticas). Desde o colapso da Grécia até há bem pouco, a história da Zona Euro seguiu este guião, linha por linha.
v Hélàs! A táctica tinha (e tem) um ponto vulnerável: vá-se lá saber porquê, os génios que conceberam o euro não colocaram uma Câmara de Compensação junto do BCE. A compensação entre os Bancos Centrais que formam o esqueleto da Zona Euro (o SEBC/Sistema Europeu de Bancos Centrais) é feita bilateralmente, sem regras para a liquidação automática dos saldos (contrariamente ao que acontece em qualquer esquema de clearing concebido com pés e cabeça). E os saldos têm-se acumulado.
v Resultado: o Banco Central alemão (o Deutsch Bundesbank) é, neste momento, credor do SEBC em quase € 900 biliões (cerca de 9% do PIB da Zona Euro, 1/3 do PIB alemão). Ninguém sabe como é que este problema poderá ser resolvido – e todos, entretanto, vão assobiando para o ar.
v A estratégia, essa, é de maior fôlego. Para melhor compreendê-la há que referir uma característica comum a todas as uniões monetárias:induzir recessões competitivas. Quem as integrar, uma vez despojado do instrumento cambial, só pode competir com os seus parceiros através de custos (do trabalho, financeiros, de contexto) cada vez mais baixos, para não ver partir as suas empresas.
v A UEM não é excepção, tanto mais que, no seu interior, a movimentação de pessoas experimenta grandes atritos – e os regimes fiscais estão muito longe da sonhada harmonização.
v Em 2001, o euro reuniu de golpe, sob uma mesma denominação e num único mercado, toda a liquidez que, até então, andava repartida pelas moedas nacionais que ele vinha substituir.
v Essa abundância de liquidez, acompanhada da livre movimentação de capitais, ocultou, durante os três primeiros anos, a dura realidade da recessão competitiva. Aproveitar fosse como fosse o dinheiro abundante e barato era, por esses dias, a palavra de ordem em toda a Zona Euro – e a Alemanha não foi excepção.
v Mas foi a Alemanha, justamente, o primeiro Estado Membro a cair na realidade (deficit orçamental acima de 3% do PIB, quebra acentuada no tradicional superavit da BTC).
v Em 2004, o Governo Schroeder percebeu que, para não perder competitividade externa (sobretudo, nas regiões do Globo com maior potencial, como os BRICs e os EUA – sim, os EUA) tinha de encontrar uma solução que satisfizesse, simultaneamente, um euro forte e estável (para o equilíbrio interno) e preços competitivos na exportação de bens e serviços (para o equilíbrio externo).
v Sem perder tempo, deu início a uma estratégia de recessão competitiva centrada na redução dos CUT/Custos Unitários do Trabalho (recorda-se, Leitor, da agitação social na Alemanha, em 2004 e 2005?) – a que o BCE veio dar uma ajudinha na vertente “custo do capital”. E fê-lo com determinação e rigor prussianos. De tal modo que, recentemente, uma associação empresarial holandesa ameaçõu levar o caso a Strasbourg (sede do TJUE), alegando concorrência desleal.
v Estimular a procura interna, só abandonando uma estratégia que tanto custou a montar, mas que tão bons frutos tem dado. Compreende-se, pois, que a Alemanha seja um leader relutante em matéria de estímulos directos à procura interna para relançar o crescimento económico.
v Para a Alemanha só fazem sentido estímulos orientados, simultaneamente, para ganhar quota no comércio internacional e para manter o euro forte e estável. E a recessão competitiva é, à primeira vista, a solução óbvia (assim o “povo povão” aguente).
v Na sua aparente robustez, esta estratégia tem nos restantes Membros da Zona Euro a sua maior fragilidade. E se eles enveredarem também por estratégias de recessão competitiva, levando-as mais longe do que a própria Alemanha? E se eles não alinharem com o passo da Alemanha em matéria de redução dos CUT? E se os mercados financeiros discriminarem Estados Membros, impondo a uns custos de capital muito superiores aos de outros?
v O primeiro problema não preocupa sobremaneira a Alemanha - por enquanto. A eficiência da sua indústria não tem paralelo na UE. E o acesso a energia barata (vinda de Leste), para mais paga em euros (a moeda própria), coloca-a a par dos EUA – e acima de todas as outras economias.
v Os outros dois problemas conduzem, cedo ou tarde, a cenários de desagregação da Zona Euro, com um membro após outro a ter de sair do euro para tentar recuperar os equilíbrios “macro” (tanto interno, como externo) – partindo de rendimentos reais substancialmente mais baixos.
v E o que significaria, para a Alemanha, regressar ao DMark?
v Significaria:
- Uma acentuada valorização cambial do DMark relativamente às moedas nacionais das economias suas principais concorrentes no comércio internacional;
- A imperiosa necessidade de compensar, compensar sempre, o mais pequeno surto de revalorização cambial do DMark com medidas mais duras de redução dos CUT;
- Ter de proteger da concorrência internacional as actividades domésticas dirigidas à procura interna (possivelmente, com restrições à livre circulação de mercadorias e serviços);
- Empreender sistematicamente medidas para esterilizar o afluxo de capitais aos Bancos alemães e ao DMark (se não mesmo restringir, por via administrativa ou fiscal, a importação de capitais);
- E - talvez o pior - ter de voltar a pagar em USD o crude, o gás natural e várias matérias primas que não pode deixar de importar.
v Significaria, em última análise, mergulhar num mar de incertezas:
(i) do custo da energia aos custos das matérias primas industriais;
(ii) do stock da liquidez em circulação (e do nível da inflação gerada internamente) à paz social.
v Até ao momento, a Zona Euro dá-lhe:
- A certeza de um mercado alargado, livre de risco cambial;
- Um elevado grau de certeza na factura da energia e de muitas outras matérias primas;
- A possibilidade de ter como moeda nacional uma moeda de reserva internacional (com os ganhos de senhoriagem que tal permite aos seus Bancos);
- O contrapeso de economias cujos desequilíbrios impedem que a taxa cambial do euro dispare por aí acima;
- E, consequentemente, uma estratégia de recessão competitiva (relativamente ao resto do mundo) menos agreste.
v Mas, para que o mundo seja assim, à medida dos interesses alemães:
(i) nenhum Estado membro pode lançar a toalha ao chão para recuperar a sua própria moeda nacional;
(ii) todos os Estados membros têm de acertar o passo (nem mais rápido, nem mais lento) pelo ritmo de recessão (principalmente, ao nível dos CUT) que a Alemanha for impondo, segundo as suas próprias conveniências.
v É justamente isto que Frau Merkel e Herr Schäuble não se cansam de nos segredar ao ouvido, de há três anos a esta parte.
(FIM)
A. Palhinha Machado
Como Financiar a Segurança Social no Século XXI - José Manuel Monteiro Veludo
Publicado a 14 Mai 2013
Secção: Coluna dos Associados, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
Uma proposta de sustentabilidade social
O presente projecto pretende analisar alguns dos problemas com que se debate hoje a segurança social, em particular as dificuldades, periodicamente anunciadas, relativas ao seu futuro financiamento e consequente sustentabilidade. Tal facto não pode deixar de suscitar a maior atenção e a maior preocupação, atendendo à sua relevância para o bem-estar da sociedade.
O desenvolvimento e a sustentabilidade social da sociedade levantam-nos, desde logo, dois problemas, que estão naturalmente ligados quando se questiona até onde deve ir a segurança social. Um dos problemas é o de saber até onde deve ir a protecção dada pela segurança social, levantando-se inclusive a questão de saber se ela deve ou não substituir por completo alguma iniciativa das pessoas no acautelamento do seu futuro.
As mudanças radicais das formas de produção no último quartel do século XX, em particular com a introdução das novas tecnologias nos processos produtivos, tiveram como consequência directa que se passou a produzir mais riqueza com menos trabalhadores e, em simultâneo, com uma crescente qualificação de cada posto de trabalho. Estas modificações têm vindo a originar uma maior individualização e independência de cada trabalhador, facto este que, aliado a uma menor concentração de trabalhadores, agravado ainda com os processos de deslocalização das empresas, no actual processo de Globalização, tem conduzido a uma fraca mobilização dos trabalhadores em torno da defesa dos seus direitos, os quais, progressivamente, lhes têm vindo a ser retirados ou diminuídos.
Para lá das dimensões referidas, o presente trabalho não deixará de abordar as questões sóciodemográficas (a relação activos/inactivos) e o envelhecimento populacional, não lhe merecendo estas questões, todavia, a importância que lhes é conferida por outros estudos, bem como, neste novo contexto sóciodemográfico, quais deverão ser as transformações a adoptar no papel do Estado, especialmente na regulação dos direitos sociais.
Neste estudo procuramos discutir modalidades de financiamento sustentável da segurança social no século XXI. Nesta perspectiva, o problema essencial que se coloca é em saber se o modelo mais adequado é o vigente, ou, pelo contrário, é preferível um modelo que assente num financiamento da segurança social baseado nos impostos indirectos. Na busca de uma solução para este problema procuramos identificar as linhas essenciais em que se estrutura o Modelo Social Europeu, relacionar a questão da pobreza e da sua permanência estrutural com as pensões de reforma, discutir o papel do Estado no financiamento da Segurança Social, contrapor a lógica das poupanças à lógica das pensões, referenciar modelos de sustentabilidade de financiamento, avaliar a pertinência dos regimes privados e identificar as linhas de financiamento da segurança social e das pensões de reforma em Portugal.
Como conclusão deste estudo, avançamos uma proposta de alteração do actual modo de financiamento, que se baseia no pressuposto que Portugal deverá financiar a segurança social afectando parte das receitas do IVA. Como financiar a Segurança Social no século XXI? Uma proposta de sustentabilidade social
Jogos de Sombras I - A.Palhinha Machado
Publicado a 14 Mai 2013
Secção: Opinião, Área de Foco: Economia | Deixe um Comentário
Desmistificar o chamado “regresso aos mercados”. Uma Análise de A.Palhinha Machado in http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/924168.html

v “A emissão de Dívida Pública Externa correu lindamente”. Só correria mal se sindicato bancário e Governo se desentendessem – por maior que fosse o desespero do Governo para emitir dívida numa aparência de mercado. E tudo teria morrido no segredo dos gabinetes.
v Com os mercados financeiros internacionais enxarcados em liquidez (FED, BCE, BoJ e mesmo BoE a prosseguirem, simultaneamente, políticas monetárias de quantitative easying); com o BCE a afirmar que fará tudo para sustentar o euro (e a manter abertas as linhas de cedência de liquidez garantidas por Dívida Pública portuguesa); e com a colocação assegurada por um grupo de Bancos (sindicato bancário; não, a emissão não teve lugar em mercado aberto) – numa conjuntura tão favorável assim, não colocar a emissão é que seria impensável, um feito histórico.
v A decisão dos investidores directos (e daqueles que entram habitualmente em swaps de carteiras com Bancos) subscrever Dívida Pública portuguesa é uma decisão que faz todo o sentido:
(i) compram por 100 um título com cupão de juros de 5.66/ano;
(ii) acorrem ao BCE e entregam esse título em garantia de um financiamento que andará pelos 90, pagando por isso menos de 0.90/ano;
(iii) a diferença (da ordem dos 10=100-90) preenchem-na com Capitais Próprios;
(iv) com esses 10 de Capitais Próprios a obterem uma taxa de retorno de 47.6%/ano (=4.76/10; com 4.76=5.66-0.90).
Nada mau, para quem empresta. Deprimente, para quem pede emprestado.
v Esta história só não terá um final feliz se o BCE desistir de fazer tudo para sustentar o euro – por exemplo: deixando de aceitar mais a Dívida Pública portuguesa como garantia das operações de cedência de liquidez (o que, sendo possível, parece muito pouco provável num futuro previsível).
v Correu lindamente? A única coisa que correu bem nesta emissão foi o facto de ela ter ocorrido – e nada mais. A taxa de juro obtida (à qual há que acrescentar as comissões cobradas pelo sindicato bancário para conhecer o custo efectivo dos fundos captados) é vergonhosamente elevada (e não pode ser comparada com o que se passou na última emissão semelhante, porque a conjuntura, então, era outra). A sensatez recomendaria que não se repetisse a brincadeira pelos tempos mais próximos.
v “Há que financiar as empresas portuguesas. O Governo não pode emprestar, que avancem os Bancos”. Porque será que, entre nós, “necessidade de financiamento” é sempre sinónimo de “mais dívida”? Ninguém aprendeu a lição do endividamento excessivo em que Governos, Bancos, Empresas e Famílias se comprazeram durante anos e anos a fio?
v Em geral, as empresas portuguesas não têm necessidade de mais dívida, mas de mais capitais próprios. E o que faz o Governo para motivar a capitalização das Empresas? Considera os encargos financeiros com a dívida (juros, etc.) como custos fiscais (abate-os à matéria colectável) - e tributa duplamente a remuneração dos capitais próprios.
v Sem se aperceber de que, quanto maior for o endividamento, maior será o risco que a economia representa aos olhos de todos. E que, quanto mais endividados estiverem os seus devedores, mais elevados terão de ser os capitais próprios dos Bancos. Além de que a legislação persiste em não proteger suficientemente os sócios minoritários.
v “Há que proporcionar o acesso ao dinheiro em condições razoáveis”. Em Portugal, a lista de direitos adquiridos não pára de crescer – agora é mais este: dinheiro (leia-se, endividamento) em condições razoáveis. Só que, nos empréstimos bancários, o que é razoável é que o custo do dinheiro reflicta a perda esperada na operação - e essa perda esperada (por unidade de capital em risco) será tanto maior quanto maior for o grau de endividamento do devedor.
v Entre nós, até 2010, a regra foi exactamente o oposto: condições sem a menor razoabilidade. Durante anos, porque conceitos como “perda esperada” eram obscuros – e não passava pela cabeça de ninguém (dos Bancos ao BdP) ligar perdas prováveis a capitais próprios. Mais recentemente (a partir de 1999), porque o que importava era lutar por quota de mercado a qualquer preço - o risco incorrido, esse, era um detalhe sem grande importância.
v E assim vamos vivendo, não no meio de um nevoeiro espesso, mas iludidos por jogos de sombras que alguém vai projectando habilmente nas paredes da caverna. (cont.)
Desporto Universitário - II - Prof. Doutor José Augusto Rodrigues dos Santos
Publicado a 10 Mai 2013
Secção: O IDP recomenda, Opinião | Deixe um Comentário
Hoje, com as forças do neoliberalismo a penetrarem sub-repticiamente todas as expressões de vitalidade do tecido social europeu, assistimos à consideração do desporto como mercadoria de consumo numa sociedade regida pelas sacrossantas e idolatradas forças do mercado. Cultura e formação estão longe das preocupações dos tecnocratas que nos governam, e somente a lógica do lucro impera em todas as esferas de realização social.
Como pedagogos do desporto, levantamo-nos, desde há muito, contra a consideração exclusiva do desporto como actividade marginal, catártica e higiénica. Retirando-o da marginalidade pugnamos por um desporto que, podendo ser catarse e higiene, deve ser fundamentalmente uma expressão de cultura, relevando da vocação ética e estética que ultrapassa o domínio físico onde se expressa.
Caminhamos para uma sociedade de lazer em que o desporto, ao lado de outras formas de expressão cultural, se constituirá como meio de defesa eficaz contra a robotização das mentes e dos costumes.
Ao emergir da sociedade como fenómeno complexo e não como epifenómeno passageiro e superficial como alguns pensaram, o desporto, em circuito retroativo marca a sociedade hodierna como regras e rituais cada vez mais institucionalizados e de superior pregnância sociológica. Os instrumentos heurísticos que nos serviram para compreender o desporto no passado mostram-se incapazes de penetrar no desporto hodierno.
Em 1975, na fase mais quente após o 25 de Abril, momento em que todos os valores eram postos em causa, Jorge Crespo, num arroubo visionário falhado, afirmava que “a desestruturação do futebol profissional, o seu apagamento e eventual destruição, é um facto irreversível” (sic). Sentimos, sim, que os primeiros momentos revolucionários eram mais propensos à nossa afirmação de cidadania e participação política, procurando nervosamente novos valores. Pusemos em causa, além de alguma axiologia religiosa ultramontana, alguns dos ícones culturais que foram cimento do Estado Novo – o fado e o futebol. Alguns tentaram marcá-los com os estigmas do autoritarismo e alienação social. Enganamo-nos. Não era o fado e o futebol que eram alienantes; éramos nós que estávamos alienados dos mais elementares direitos cívicos e políticos.
Ultrapassados os momentos de efervescência catártica e de crítica radical aos valores estabelecidos, já de posse de alguns instrumentos conceptuais novos, aceitamos o regresso do fado e futebol que faziam parte da nossa mais conseguida idiossincrasia. Com a nossa libertação cívica e política libertaram-se também todas as expressões culturais que jaziam adormecidas nos nossos sonhos de utopia, assistindo-se a um boom significativo do desporto que ganhou uma rara pregnância social, única na história da grei.
O desporto ganhou dimensão cultural e utopia. Utopia que se concretizou nos feitos maravilhosos dos nossos meio-fundistas e fundistas do Atletismo.
O desporto foi campo úbere de afirmação Pátria. Com a nossa emoção mais profunda expressa em lágrimas de alegria recuperamos, com o feito olímpico do Carlos Lopes, um sentimento de autoestima Pátrio que só terá paralelo nos feitos dos nossos grandiosos navegadores.
O desporto elevou-nos a dimensão de cidadania e respeito internacional, por isso o devemos reformular, cada dia, na senda da perpetuação das nossas mais íntimas utopias.
O desporto, como forma de expressão de sociabilidade, deve ser catalisador da realização ontológica. O desporto deve ser terreno vivo de encontros humanos tendo a festa, o riso, a alegria e o humor como referências e tendo como denominador comum a competição.
Competir como processo de elevação pessoal e social, aceitando as hierarquias impostas pela performance desportiva. Nesse contexto, o adversário deve ser visto não como o inimigo a destruir mas como o companheiro necessário à aventura da auto e hetero-superação pela via do desporto. Querer ganhar sempre, mas no respeito das regras, das normas, dos valores.
É esta a dimensão que pretendo para o desporto universitário que deve ser assumido ab initio sem sofismas.
Comunicado IDP sobre o Dia da Europa - 9 maio 2013
Publicado a 09 Mai 2013
Secção: :: Comunicados, Notícias IDP | Deixe um Comentário
Comemoramos o dia da Europa neste 9 de maio de 2013 com vários pesadelos a pairar sobre a União Europeia, em particular nos países do Sul: a classe trabalhadora tem cada vez menos trabalho, a classe média tem cada vez menos meios e a classe dirigente tem cada vez menos classe. E estes países do Sul são os fundadores da Europa histórica, a Grécia da Antiguidade, a Itália, Portugal e Espanha da modernidade mediterrânica e da Expansão mundial, depois seguidas por França e Inglaterra.
Os povos europeus tiveram um papel essencial no desenho do Mundo em que hoje vivemos. Inaugurámos a modernidade como época e a modernidade tornou-se um processo que chegou a todo o mundo e aos nossos dias. Nenhum outro continente tem tamanha preponderância cultural, nenhum outro liderou uma tal mudança. Enquanto continente, a Europa é um elemento incontornável no mundo moderno e será, no futuro um ator essencial na elaboração do mesmo.
O 9 de Maio, sendo a data importante da fundação da União Europeia, é apenas um segmento da riquíssima história da Europa. A unificação europeia é uma ideia inovadora e arrojada, como apenas os europeus poderiam empreender. Num mundo em que a fragmentação é a norma, onde nem América, nem Ásia, nem África se apresentam como unidades, unificar povos diversos com um fundo cultural comum é uma tarefa que apenas os europeus poderão conseguir.
Lembremos o óbvio. A Europa de hoje é mais rica do que alguma vez o foi na sua história. Mas é uma Europa mais velha e menos afoita do que em épocas anteriores. Conseguimos a paz, através da colaboração de países que estiveram em guerras ao longo de séculos. Em torno de um projeto comum, alcançámos um nível de prosperidade e benefícios inauditos. Mas agora exigimos novas regras comuns. Para manter os mesmo princípios de paz, solidariedade, coesão e justiça social.
Encontramo-nos, num momento chave da construção de um novo ciclo. Para quem tem uma história de muitos séculos, o período da construção do espaço europeu é curto; os desafios presentes são muito semelhantes aos do passado. Não existem razões para perder a esperança na Europa, mas temos de abordar com uma nova atitude o novo ciclo em que estamos a entrar.
Vivemos tempos conturbados em que se definirá o nosso futuro. Estamos a assistir ao risco dos interesses de cada membro se sobreporem ao interesse comum, pondo em perigo um projecto que, a ser invertido, teria custos insustentáveis para todos. As elites europeias usaram a “Europa” face aos seus eleitorados como o álibi para a promoção de decisões impopulares. É o famoso défice de democracia na Europa. Esse tempo está esgotado porque se exige aos povos independentes europeus que renovem o compromisso com a Europa.
Os movimentos de cidadania, as redes da sociedade civil, os movimentos sociais, vão ter uma palavra cada vez mais decisiva neste novo ciclo da Europa. Vão ser eles a exigir responsabilidades aos dirigentes, para alcançar um novo compromisso histórico entre os povos da Europa. A democracia vai ter que encontrar novas fórmulas para que os trabalhadores tenham cada vez mais assegurada a sua dignidade e para que novos dirigentes mostrem que servem os povos, antes de servir-se a si próprios ou a poderes económicos e financeiros. Só assim os pesadelos desaparecerão da União Europeia.
Lisboa, 9 de maio de 2013
A Direção do IDP
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